Esquire

O que eu aprendi com Leslie Nielsen

04/07 - 11:30hs

Revista Esquire

O ator de 82 anos fala sobre cachalotes, sua família disfuncional e como ele gostaria de ser lembrado

A infância
Antigamente Leslie era um nome de menino.

Uma coisa que uma pessoa não fará quando está rindo é tentar lhe bater.

Quando eu era menino eu entregava jornais de bicicleta na parte baixa da rua 64 F. A pior parte disso é que eu queria impressionar as garotas então eu tinha que estar bonito. Eu não podia usar um chapéu com abas protetoras de orelhas. Eu tinha que ter um topete ondulado. Então eu colocava um pouco de água no cabelo e levantava aquele topete ondulado sobre a testa. Então eu ia para fora de casa e ele congelava.

No Ártico, onde eu cresci, rir é parte da alimentação diária. Ninguém quer ouvi-lo dizer: “Puxa, está frio mesmo”.

Meu pai ensinou-me muitas lições mas uma está sempre presente: ele me disse “Lembre-se nunca diga ‘Não é?’. Diga ‘Né?’.

Se você for pescar certifique-se de não ter a sua linha de pescar cachalotes com você. Um cachalote desce a 762 metros de profundidade e prende a respiração por até 80 minutos.
Mesmo se você pegasse um cachalote, quando você o pusesse no barco ele o afundaria.

As lições
Levei muito tempo para perceber que eu vinha de uma família disfuncional mas sabe, pelo menos eu tive essa revelação.
Eu me lembro quando rapaz de ter visto “ A morte do caixeiro viajante”, com Lee J. Cobb.

Quando a peça acabou ninguém na platéia se mexeu. Tudo o que se ouvia eram algumas pessoas fungando. O silêncio era opressivo.
Foi uma demonstração marcante do poder do teatro. Eu nunca me esquecerei daquilo. Nunca.

Sim, é verdade, eu tenho sido chamado de o Laurence Olivier dos enganadores. Eu acho que isso faz de Laurence Olivier o Leslie Nielsen de Shakespeare.

Existe um velho ditado que diz que Deus existe na sua busca por ele.
Eu só gostaria de entender o que eu não estou procurando.

Eu tenho uma “máquina de peido” que eu normalmente carrego comigo
Uma vez eu estava em um bar indo em direção ao banheiro e havia esses dois rapazes discutindo ardorosamente e a coisa estava ficando feia. Quando eu passei pelo meio dos dois eu disse “Onde é o banheiro? É lá no fundo?  Pfffffppppffffff”. Bem, esses dois rapazes olharam-se e então olharam pra mim e os dois começaram a rir. A briga havia acabado.

A carreira
As pessoas me perguntam “Pelo que você gostaria de ser lembrado?” Isso realmente não faz a menor diferença. Eu fiz “Apertem os cintos o piloto sumiu!”, Três filmes da série “Corra que a policia vem aí,” “O Foragido” e “Drácula: morto mas feliz”.

Da maneira que eu olho pra isso tudo eu construí a minha piramidezinha e ela estará ai enquanto as pessoas tiverem olhos para ver.
Você não pode ser um policial e viver bem sem um pouco de senso de humor.

Tenho recebido honrarias de muitos departamentos de polícia, mas esse tipo de história resume tudo: eu estava jogando golfe num torneio de celebridades com presidentes, Clinton estava lá assim como Ford e Carter. Nós andávamos por lá em grupos de quatro. Havia uma parada.
Eu vim com o carrinho e um cara que estava vencendo facilmente pára exatamente em frente a mim, perfila-se e diz “ Seeen-ti-do!” e me saúda.

Quando você está dando um autógrafo algumas pessoas querem lhe dar instruções de como fazê-lo. “Você pode, por favor escrever `Não me chame de Shirley´?”. Quando tem muita gente esperando, as pessoas deveriam entender que isso toma o dobro do tempo.

O pai
Uma vez eu deixei minha filha com quatro amigos que estavam tomando sol ao lado da piscina. Eu disse, “Ei, dêem uma olhada na Maura”. Ela deveria ter uns 6 anos de idade nessa época. Bom, eles começaram a conversar. Eu atravesso o quintal, subo as escadas e de repente a vi na beira da piscina. Você reage instantaneamente. Eu me lembro de mergulhar na piscina e agarrá-la. Ela balbuciou alguma coisa então ela não estava se afogando. Ela não havia ficado submersa por muito tempo.

Depois que eu soube que ela estava bem, dois sentimentos me ocorreram: eu estava lívido e bravo com meus amigos por não terem tomado conta dela. E, não, eu não era um herói nem nada disso, mas eu realmente me senti bem por saber que sem nem mesmo pestanejar eu teria feito qualquer coisa para salvá-la. O que senti quando esse fato ocorreu não é diferente do que eu sinto agora ao me lembrar dele.

Divagações várias
Não gosto de oceanos porque não se pode ver o outro lado.

Todo o julgamento estava baseado em dúvida razoável. Minha postura em relação a isso é: eu tenho uma razoável dúvida de que ninguém mais, apenas O.J. possa ter feito aquilo.

Eu me lembro de um amigo do departamento de polícia que ia abrir a porta do carro para sair, ele empurrou-a com o corpo mas ela não abriu completamente. Eu pensei: “Ele talvez seja 10 anos mais velho que eu. Jesus Cristo, é isso o que chamam envelhecer?”

A razão de haver um ponto de interrogação na porta da frente de minha casa é apenas para o caso de eu esquecer onde moro.

Morar em Fort Lauderdale me faz sentir como se eu sempre estivesse em férias.

Não posso estar perto de Barbaree sem ter consciência do seu amor. Eu me lembro de uma vez que Barbaree olhou para mim e disse: “Você tem noção de quanto eu o amo? E eu disse, “Bem, eu tenho uma vaga idéia”. Ela disse “Você sabe que se alguma coisa acontecesse a você eu acho que me mataria”. Fez-se um longo silêncio. Então ela disse “Como você se sente?”. Eu nunca me esquecerei dessa.

Eu tenho realmente que estar “de olho” em mim porque, às vezes, eu penso que posso dizer algo importante.

(Cal Fussman é um escritor, grande colaborador da Revista Esquire)


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