Esquire
Como presentear bem?
07/07 - 12:26hs
Revista Esquire
Dar presentes – não no Dia dos Namorados ou no Natal, mas como uma forma de comunicação – pode mudar a maneira como o mundo te vê
Por Tom Chiarella
Ver alguém abrir um presente é como assistir a um filme pornô. As interjeições são um pouco exageradas. A câmera foca nessa coisa, esse processo que todos conhecemos: as mãos em alvoroço, um puxão aqui e outro lá, laço sendo colocado de lado e o papel rasgado. E o próximo passo são pessoas gritando ou gemendo.
Elas sorriem e anunciam – felicidade, alegria, um falso escândalo. Talvez alguém até ganhe um beijo. Mas não importa quão sincera é essa alegria ou estima, o rosto não esconde a verdade. E diversas vezes ele demonstra uma surpresa falsa, uma ponta involuntária de decepção, um embaraço inevitável. Eu nem olho. Eu odeio essa cena final.
Isso não significa que eu não goste de dar presentes. Eu gosto. E até dizem que sou bom nisso. Eu vejo um propósito, uma graça inegável, quando feito de maneira correta. Mas o ato de presentear acontece diversas vezes no ano. Ele segue um calendário e muitas vezes é uma rotina forçada pelo comércio.
Certa vez ganhei um relógio verde de um fornecedor de cervejas no Dia de São Patrício. Um dia me deram uma abóbora de cera de 18 cm no Halloween. Alguns são muita falta de consideração. As pessoas me dão malhas coloridas. Gravatas. De vez em quando até ganho um diário.
Todos nós sabemos como ser gentis nessas ocasiões, e todos sabemos como ser falsos também. A verdadeira questão é: como presentear bem? Não apenas em dias de festas e aniversários, mas como um instrumento de comunicação. Quando, como, o que e com qual freqüência? Como você faz com que presentear tenha significância em um mundo em que todas as pessoas que conhecemos já têm o suficiente?
Regras para melhorar seus presentes
Eu desenvolvi um conjunto de regras que me permitem dar presentes que não são ignorados. Eu acho que, em alguns níveis, existe uma troca mútua nesse processo. Mas o retorno, se é que posso chamá-lo disso, vem em forma de regras, estocando presentes que serão dados no momento certo e levando em consideração a vida dos outros.
Então, a primeira regra é: escutar. As pessoas estão constantemente lhe dizendo o que gostam de fazer. As coisas que vão agradá-los estão nas histórias que contam. Deixe que te contem suas histórias. Pesca com mosca. Golfe. Sanduíches. É por isso que se puxa papo com colegas e clientes. Assim você colhe as histórias.
Essas pessoas estão desesperadas por meia dúzia de trenzinhos vermelhos de cobre feitos à mão, ou uma caixa de bolinhas de golfe Precept EV, ou um pote de mostarda integral importada da Escócia. Como eu sei disso? Essa é a regra número dois: converse. Conecte com as pessoas. Saia um pouco do seu percurso. Faça um telefonema. Peça conselhos. Vendedores lhe dirão que isso não acontece o bastante.
Agora mesmo liguei para uma loja de pesca e perguntei sobre um bom e útil equipamento de pesca, telefonei para um especialista em golfe para perguntar quais eram as novidades que ele gostava e lembrei que quando fui para a Escócia comi aquela mostarda integral nojenta em uma pousada e o dono me interrogou se tinha gostado, que era uma especialidade local e que eu não encontraria em lugar algum, então pesquisei no Google. E sim, eu posso encontrá-lo em vários outros lugares.
Aposte no inusitado
Examine o que está ao seu redor. Eu desprezo lojinhas de presentes, acredito que não passam de uma série de alvos para os olhos. É esperado que você olhe para os chaveiros próximos ao caixa. Na mosca. É esperado que você veja aqueles bichinhos de pelúcia feinhos nas vitrines e a prateleira de aviões em miniatura. Na mosca, de novo. Não acerte os alvos.
Uma vez achei uma caixa antiga fechada de figurinhas de beisebol em um posto de gasolina no interior do Tennessee, escondida atrás dos óculos escuros. E comprei um azeite de Kampia importado de Chipre no lobby de um cassino. Estava na última prateleira, do lado direito do caixa. Ninguém lembrava que aquilo estava lá. Ainda me deram 20% de desconto só por ter abaixado para pegá-lo.
O mesmo se aplica aos lugares onde você faz compras. Se precisar de um presente para uma mulher, vá a uma loja de ferramentas. Sementes são sempre um sucesso. Materiais de construção são tão legais quanto são inúteis. Corujas de plástico. Você com certeza deve conhecer alguém que gostaria de uma coruja de plástico, mesmo se for só para espantar pombos. De novo: Não acerte os alvos.
Inverta dinheiro e tamanho. Gaste mais com pequenas coisas. Gaste menos com coisas grandes. As pessoas se lembram de coisas que podem carregar com eles. Gravatas são um ótimo exemplo. Gaste muito com gravatas ou simplesmente esqueça o assunto.
Eu vi um prendedor de dinheiro feito à mão muito legal no aeroporto de Albani no final de semana passado. Custava 35 dólares. O que, eu acho, era muito para um prendedor de dinheiro de madeira, mas não demais quando, em um mês, vou pensar no que comprar para o meu irmão no seu 42º aniversário. Droga. Trinta e cinco era um roubo. Devia ter comprado três.
Faça um estoque de opções
O que me faz lembrar das próximas regras: sempre compre. E estoque. Se você acha que pode ser certo, provavelmente é – ou será na ocasião apropriada. Compre. Guarde em uma prateleira em um canto qualquer e esqueça daquilo até o momento certo.
Se você tiver estocado bem – vinho, azeite, porta copos memoráveis – comprar mais futilidades criará um inventário e possibilidades, deixando com que você nunca tenha que perder seu tempo em terríveis shoppings locais e vagar procurando um presente de aniversário em uma loja franqueada.
Isso – o tempo economizado, o passeio evitado, a chance de ter cumprido uma obrigação antes mesmo de ela acontecer – é o mitzvah de presentear. É o motivo pelo qual você compra e estoca. E daí se você tiver alguns potes de marmelada sobrando?
E os cartões?
Não compre cartões. Nunca. Não farei delongas sobre a falta de imaginação de comprar um cartão. Você pode até amá-los, mas preste atenção: agrado não se compra. Apenas escreva um bilhete. Duas linhas. Nada de poemas.
Um cartão é uma referência para o seu próprio esforço, que vem do costume de comprar presentes em lojas que vendem cartões. Que incluem, mas não se limitam a supermercados, grandes lojas de departamento e lojas de conveniência.
Não espere recompensas
Não espere nada em troca. Você quer ter influência no mundo – entre as pessoas que você conhece bem e, mais importante, as que não conhece? É exatamente o que essas regras lhe darão. Não uma melhor mesa no restaurante, nem dinheiro, nem desconto em um carro. Influência.
Presentear em um impulso o transforma aos olhos dos outros. Aquele que dá um presente inesperado – ou um esperado, porém com extrema consideração – sabe de algo, enxerga algo nos outros que ninguém mais vê. É um meio de conexão, de informação secreta.
Presenteando de maneira inteligente, você demonstra ser esperto o bastante para prestar atenção na vida dos outros – suas necessidades, interesses particulares, uma pessoa a ser escutada. Influência. Então acorde, olhe à sua volta e pare de ver o ato de presentear como algo a ser feito somente às pressas, na véspera do Natal. Transforme isso em uma parte de tudo que você fizer. Colha informações. Seja curioso. Pergunte. Compre!
Se existe alguma regra para influenciar, é: aja primeiro. E, nesse caso, não espere nada em troca. Um bom presente não pode ser um fracasso, nem deve ser. E deve ser lembrado como um memorial – para amizade, parentesco, amor, o que quer que seja. Se você ficar esperando o mesmo em troca, estará arriscando se sentir esquecido ou enganado por aqueles que você mais quer atingir.
Eu? Eu nunca fico triste ao ganhar um presente. Mesmo que só exista uma coisa que sempre quero ganhar. Duas caixas de baralho Copag. O meu favorito. Eu também gosto de fichas velhas de pôquer de cassinos falidos. Eu sempre falo isso para as pessoas. E, por alguma razão, ninguém me ouve. E então ganho um boneco inflável de Ben Wallace, em tamanho real, ou um horrível taco de golfe que nem em um galinheiro eu usaria, ou uma gravata.
Sou tão bom quanto o cara que passa na inspeção da alfândega com cara de arrogante. O sorriso. Com a cabeça um pouco empinada. O gemido que vem do centro do meu peito. E não estou sendo falso. Prometo. Essa é minha regra final: presentear deve ser um ato de apreciação e não a busca pelo êxtase.
O mesmo quando receber um presente. Pule a parte do orgasmo. Deixe a pornografia aonde ela pertence - nesse caso, na prateleira de livros, debaixo da coruja de plástico – e aprecie o fato de que alguém pensou em você no respeitável costume de sua própria generosidade.
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