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A vida de quem abriu mão do poder

20/08 - 12:16hrs

Max Gehringer conta o que acha das mulheres que tomam a iniciativa e quem manda em um relacionamento

Oliver Quinto

Max Gehringer é administrador, ex-executivo, escritor (acaba de lançar o livro "Max de A a Z", pela Ed. Globo), conferencista e comentarista de carreiras na Revista Época, Rádio CBN e programa Fantástico da TV Globo.

Em 1999, no auge de uma carreira bem-sucedida que o levou à direção de grandes empresas (Pepsi, Elma Chips e Pullman), Max tomou uma decisão raríssima no mundo corporativo: abriu mão do poder e das mordomias de alto executivo para dedicar seu tempo a escrever e a fazer palestras pelo Brasil.

O humor e a sensibilidade de seus textos vêm da vivência prática de um mundo que ele conhece degrau por degrau: o primeiro emprego, aos 12 anos, foi de auxiliar de faxina. O último: presidente da Pullman.

iG: O que você faria se fosse o Todo Poderoso?

Max Gehringer: Mudaria o título da função. Nunca fui autocrático e detesto ficar dando ordens.

iG: O que você faria com um cartão corporativo?

Max Gehringer: Cancelaria. Quem gasta o que não tem está comprando encrenca.

iG: Os velhos tempos ainda dão saudade?

Max Gehringer: Sim, muita. E os novos tempos darão mais ainda. O ruim é quando temos mais passado do que futuro.

iG: Quais serão suas lembranças do séc. XXI?

Max Gehringer: Eu já vi mais coisas do que um dia sonhei ver, e ainda vou testemunhar um monte de maravilhas. Mas este será, sobretudo, o século em que farei a descoberta mais importante de minha existência: o que existe do lado de lá. Pena que não vai dar para contar depois...

iG: Qual é o tamanho do seu networking?

Max Gehringer: Grande para encher uma planilha, pequeno para caber no coração.

iG: Como é o seu marketing mix?

Max Gehringer: Bem simplezinho. Se não gosto, não faço. Se não quero, não vou. Uma razoável evolução em relação ao conselho que meu pai me deu no meu primeiro dia de emprego: "Faça o que te mandarem fazer, e nunca reclame de nada".

iG: Em termos profissionais, como fazer para viver em estado de gozo permanente?

Max Gehringer: Ganhar mais do que precisa e menos do que merece. A maioria não goza porque se incomoda demais com a segunda parte.

iG: Quantos meetings você tem por semana?

Max Gehringer: Nenhum. Mas tenho ótimos papos. A diferença entre reunião e papo é que papo não precisa de ata, uma burocracia inventada para nos lembrar o que gostaríamos de esquecer.

iG: O que você faz nas horas livres? Você ainda tem horas livres?

Max Gehringer: Poucas. Mas, se eu tivesse muitas horas livres, certamente estaria pensando em como preenchê-las.

iG: Quais foram os melhores e piores momentos da sua carreira?

Max Gehringer: O melhor e o pior momento foram o mesmo: o dia em que decidi deixar a vida corporativa e me tornar escritor. Profissionalmente, foi minha decisão mais dolorosa e mais sensata.

iG: Num relacionamento, quem manda é o homem ou a mulher?

Max Gehringer: Independente do sexo, sempre deve mandar quem tem mais razão e melhores argumentos.

iG: E quem seria?

Max Gehringer: A mulher.

iG: O que você acha das mulheres que tomam a iniciativa?

Max Gehringer: São as mais admiradas pelos homens, embora eles prefiram não admitir isso em público.

iG: O que mudou no comportamento das mulheres antes e agora? São elas que mandam hoje em dia?

Max Gehringer: No íntimo, os homens gostam de transferir responsabilidades, e as mulheres gostam de aceitá-las. Nunca vi uma mulher reclamando que não dá conta do trabalho.

iG: Você é um macho alfa?

Max Gehringer: Estou mais para Ômega 3.

iG: Quando você se sente mais vulnerável?

Max Gehringer: Quando sou criticado com razão. É puro trauma. Fui muito cobrado e pouco elogiado na infância e adolescência.

iG: Qual foi a última vez que você chorou? Por quê?

Max Gehringer: Choro sem vergonha. Falando em público, assistindo filme, lendo livro, ouvindo e contando histórias. Tá vendo? Bastou eu dizer isso e meus olhos já lacrimejaram.

iG: O que você já fez de mais ousado no sexo?

Max Gehringer: Na vida sexual, tudo é uma questão de referência. Levei 40 minutos para comprar minha primeira camisinha, com direito a tremedeira, suadouro e gagueira na farmácia. Depois que superei esse obstáculo, o resto ficou absurdamente fácil.

iG: Quem é seu herói?

Max Gehringer: O Fantasma dos quadrinhos. Em 60 anos, ganhou todas as brigas sem levar um único soco.

iG: Qual foi o último filme que você viu?

Max Gehringer: Ontem revi "Alien", de Ridley Scott. Foi o primeiro filme em que uma mulher encarou e venceu o monstro, em um ambiente repleto de homens. Ele antecipou, em 1979, a mulher forte e auto-suficiente do século XXI.

iG: Qual foi o último livro que você leu?

Max Gehringer: "Impensável", as histórias de pessoas que escaparam miraculosamente de acidentes, contrariando qualquer lógica. Como dizia minha nona, prepare-se bem, mas não esqueça de rezar.

iG: Qual foi o último CD que você comprou?

Max Gehringer: Prefiro baixar as músicas. E não tenho um gosto muito definido. Misturo Adoniram Barbosa e Mozart, como quem mistura melão e presunto.

iG: É bom ser você?

Max Gehringer: Considero-me plenamente satisfeito, até por falta de opção.


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