ESTILO
A vida de um autêntico toureiro na Espanha
30/09 - 11:24hrs
O toureiro espanhol Nicolás López, "El Nico", revela o que pensa, vive e sente um matador de touros
Priscilla Ralston

Nicolás López, conhecido como o toureiro “El Nico”, nasceu em Granada, na Espanha, há 21 anos. Ele demonstra ter coragem e ambição de sobra, adjetivos fundamentais para alcançar, em um futuro próximo, o status e a fama de "un gran matador de toros".
“El Nico” afirma que enfrenta o touro nas mesmas condições que seu rival, de igual para igual, sem vantagens para nenhum dos lados. Para o toureiro, cada confronto é um momento especial, em que ele entra em uma espécie de transe e chega a sair do próprio corpo.
iG: Com quantos anos você começou a tourear?
"El Nico": Sempre fui fã das touradas, mas só comecei a treinar há três anos, quando conheci o grande toureiro David Fandila, "El Fandi", em Granada. Ficamos amigos e comecei a treinar.
iG: Antes disso, quais eram os seus planos profissionais?
"El Nico": Eu ajudava meu pai, que é pintor de parede. Este seria o meu futuro, pintando casas.
iG: Em quantas corridas você já toureou?
"El Nico": Em três anos, incluindo corridas com cavalos e sem cavalos, foram 100 novilhadas.
iG: Você prefere tourear com ou sem cavalos?
"El Nico": Com cavalo. É um nível mais alto, o touro é maior e a coisa fica mais séria.
iG: O que as pessoas próximas a você pensam sobre a sua profissão?
"El Nico": A minha mãe não levou a sério no começo, mas agora me apóia muito. Tudo o que eu consegui até agora foi graças ao meu pai, que dá suporte à minha carreira desde o princípio.
| Divulgação |
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iG: Que etapas deve superar um aspirante a matador de touros?
"El Nico": Ele deve participar de, pelo menos, 40 novilhadas. É importante também fazer o seu nome, fazer fama, a imprensa deve saber quem você é.
iG: Porque a imprensa espanhola é tão importante para a carreira de um toureiro?
"El Nico": É a imprensa quem te coloca no topo e te derruba. São os meios de comunicação que pagam o nosso cachê. Sair na televisão, em jornais e revistas ajuda para que os empresários te chamem para tourear em feiras.
iG: Como é o touro considerado "bom para tourear"?
"El Nico": São os touros valentes, com nobreza.
iG: E como se comporta um touro com nobreza?
"El Nico": Ele enfrenta a lança com firmeza. Segue lutando ainda que esteja ferido. Não joga sujo, não se rende e não se cansa.
iG: E você não sente medo? Imagino que já deve ter tomado algumas cornadas...
"El Nico": Sim. Três meses atrás tomei uma cornada grave. O medo sempre está presente, é algo que todos os toureiros levam consigo, mas o bonito é enfrentar e superar o medo. É isso que te faz grande. Entrar em uma praça de touros com milhares de pessoas, meios de comunicação, amigos, o público que pagou para te ver... Isso tudo assusta. É preciso superar o medo. Essa é a grandeza das corridas de touros.
iG: Você saberia dizer quanto pesa o Traje de Luces, a vestimenta típica do toureiro?
"El Nico": Eu nunca pesei, mas asseguro que é bem pesado e inconfortável. É metal grudado ao corpo, apertado. Por isso também nossos treinamentos devem ser fortes. Nós, toureiros, nos consideramos esportistas de elite.
iG: Fora das corridas, você pratica outros esportes?
"El Nico": A preparação física é muito importante para aguentar a pressão, a responsabilidade, o medo. Eu gosto muito de correr pela montanha. Moro em Granada e vou à Serra Nevada, onde temos um centro de treinamento para esportistas de elite.
iG: O primeiro que um toureiro deve saber antes de se meter na frente de um touro é...
"El Nico": É fundamental ter muita coragem. O básico que um toureiro deve saber é "fazer o cruzado" [enganar o campo de visão do touro, atacando do lado contrário ao que ele vê a lança]. É muito importante não esquecer isso, porque pode custar a própria vida.
iG: O que você considera uma boa corrida?
"El Nico": É estar à vontade com o touro, esquecer do próprio corpo, sentir o que tem dentro de você. Tem gente que relaxa toureando, já outros ficam bravos consigo mesmo e com o touro.
iG: Você usa a internet para...
"El Nico": Para ler as críticas das minhas corridas e para ver sites de touros, como o Mundotoro.com e o Callejon.com.
iG: Que tipo de música você ouve?
"El Nico": Eu gosto muito de flamenco, me relaxa muito. Gosto do grupo El Barrio. É o que sempre escuto no carro e quando me visto de toureiro.
iG: Você vai ao cinema?
"El Nico": Eu gosto dos filmes de amor e de desamor. Sou um pouco sensível, talvez porque eu nasci no Dia de São Valentino [Dia dos Namorados no Hemisfério Norte]. Mas faz muito tempo que não vou ao cinema. Não tenho tempo.
iG: Toureiro não tem tempo para ter vida social?
"El Nico": Não temos no verão, que é temporada de férias e estamos viajando por toda a Espanha e pela América Latina. Esperamos o inverno para nos divertir.
iG: O que você acha da Plataforma Anti-taurina?
"El Nico": Acho que falam sem saber, sem razão alguma. Eu, por exemplo, não gosto de futebol. Se eu não gosto de algo, não vou e respeito. Esse pessoal não respeita.
iG: Você sente prazer matando? Nunca sentiu pena do touro?
"El Nico": Eu sinto prazer toureando. Houve touros que me fizeram sentir coisas muito bonitas. Não digo que alguma vez não tenha sentido pena e quis perdoar a vida do touro, mas isso também seria me meter em polêmica. Este ano tive a sorte de perdoar a vida a um touro.
iG: E quando se perdoa a vida de um touro?
"El Nico": Se pede muito a um touro. Queremos que ele lute e que não se renda. O touro que perdoei foi muito valente e o público me pediu para que não o matasse. Hoje ele está vivo e no campo.
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