ESTILO
Laerte por ele mesmo
07/06 - 08:30hrs
Desenhista fala sobre criatividade, seus personagens e sobre fazer as pessoas rirem
Vladimir Maluf
Personagens de tirinhas muito bem humoradas como Piratas do Tietê, Hugo e o super-herói Overman são algumas das criações de Laerte, desenhista brasileiro, que, além das suas conhecidas histórias publicadas na Folha de S. Paulo, já escreveu para programas humorísticos como os inesquecíveis “TV Pirata” e “Sai de Baixo”. O site dele, que já está no ar há 11 anos, traz diariamente uma tira nova de sua autoria.
Apesar de sua profissão ser, fundamentalmente, fazer rir, Laerte diz que, mesmo podendo exercer o trabalho que gosta, o considera como o de outro profissional qualquer. O desenhista, que já fez parcerias com Henfil, Angeli e Glauco, conversou com o iG e falou um pouco de sua carreira, que teve início nos anos 70.
iG: Como você começou a trabalhar com quadrinhos?
Laerte: Quando era criança, imitando os quadrinhos que lia. Trabalhar, no sentido profissional, bem mais tarde. Quando comecei a trabalhar, em 1973, não foi exatamente com quadrinhos, foi com ilustração de humor. Fiz uma tira para a Placar, mas não deu muito certo.
iG: É uma profissão mais fácil ou mais difícil do que as consideradas comuns?
Laerte: É como qualquer outra, acho. Um advogado, um médico, um engenheiro, podem extrair prazer - se não divertimento - de suas profissões, assim como eu.
iG: Você já escreveu para programas de humor na TV, como o “TV Pirata” e o “Sai de Baixo”. Existe algum segredo para conseguir fazer as pessoas rirem?
Laerte: Não existe uma fórmula secreta. Aliás, acho que a tentativa de produzir o riso não ajuda em nada a produzi-lo de fato. É preciso um modo natural de trabalhar a linguagem; os truques técnicos são posteriores a isso.
iG: Qual personagem você criou que mais te orgulha?
Laerte: Eu deixei de lado meus personagens, com exceção do Hugo/Muriel, que sai no caderno de Informática da Ilustrada. Não sou muito personagista, por assim dizer. Meus personagens – os melhores, pelo menos – nascem no contexto de alguma história.
iG: De toda a sua carreira, de qual trabalho ou publicação sente mais saudades?
Laerte: Não sinto saudade de nenhum. Todos tiveram seu tempo e seu ciclo.
iG: Trabalhar com desenhos faz com que você leve uma vida mais leve, sempre de bom humor, como as pessoas imaginam?
Laerte: De jeito nenhum. Mas, de todo modo, gosto do meu trabalho. Sei que a maior parte das pessoas não trabalha naquilo de que gosta. Eu não me divirto com o meu trabalho – não mais do que qualquer pessoa que trabalhe naquilo que é da sua natureza.
iG: Você, Angeli, Henfil e Glauco já trabalharam juntos. Como é trabalhar no meio de uma turma como essa?
Laerte: Com o Henfil, foi muito enriquecedor. Com o Glauco e o Angeli, foi um grande prazer, porque, naquele tempo, tínhamos uma sintonia rara de se encontrar.
iG: Como é possível criar tantas tiras, por tantos anos? Criatividade não se esgota?
Laerte: Não se esgota, desde que você cultive. O trabalho diário em algo que reflete nossa natureza, que é a nossa melhor forma de expressão, mesmo que não nos provoque êxtase a cada momento, é sempre autorrenovador.
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